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HAMMER
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2026-09-10

Tem uma época da internet que eu simplesmente não esqueço: a dos BBS. Você
discava, o modem cantava aquela música estranha, e do outro lado abria um mundo
inteiro feito de texto — menus desenhados em ASCII, cores piscando no terminal,
um canto pra conversar, pra baixar alguma coisa, pra jogar. Era pequeno,
artesanal, e tinha alma. Cada sistema era a cara de quem o mantinha.

O Hammer nasceu dessa saudade. Não veio de uma necessidade de mercado, nem de
métrica nenhuma, nem de um plano grandioso. Veio do gosto pela net antiga e da
vontade boba e teimosa de ver de novo aquela tela de terminal se abrindo quando
a gente se conecta. Foi diversão, no sentido mais honesto da palavra — o tipo de
projeto que você faz no fim de semana porque te dá prazer, não porque alguém
pediu.

“E se, em vez de mais um site, o ponto de entrada fosse o próprio SSH?”

Essa foi a pergunta que puxou o resto. Você abre o terminal, digita um comando,
e cai num menu — como nos velhos tempos, só que rodando sobre a infraestrutura
de hoje, com criptografia de verdade e sem discar. A nostalgia por fora;
engenharia atual por dentro.

O que é o Hammer

No fundo, o Hammer é uma caixa de ferramentas que você acessa por SSH. Você se
conecta e encontra um menu interativo, com cores e caixas desenhadas, exatamente
no espírito de um BBS. A primeira ferramenta a nascer foi a de clima — pergunta
a previsão de qualquer cidade e ela responde ali, no terminal, em texto bonito.
Mas a graça é que o clima é só a primeira gaveta de um armário que vai
crescendo.

Ao lado dele foram entrando pequenos utilitários do dia a dia de quem mexe com
rede e texto:

● net — checagens de DNS, TLS, HTTP e informações de domínio;

● qr — gera QR Code em ASCII, para URL, telefone ou texto;

● hash — resumo, tipo e entropia de qualquer conteúdo colado;

● jq — transforma e filtra JSON e YAML;

● age — cifra e decifra mensagens;

● e outros que aparecem no menu só quando o servidor tem o que precisam — como
checagem de links, consultas a bases e diagnóstico de rota.

Cada uma delas segue a mesma filosofia: um vocabulário fechado, com entradas
validadas. Nada de abrir um shell solto para o mundo — é um menu com portas
certas, não uma porta dos fundos.

Como foi construído

O Hammer é escrito em Go, e a decisão que define quase todo o resto foi esta:
ele é um único binário estático. Fontes, traduções, modelos de página e o que
mais o programa precisa ficam embutidos dentro do próprio executável (o recurso
de embed da linguagem). O resultado é que não há dependências soltas para
instalar, nem servidor extra na frente: um arquivo só, que você copia e roda.

A porta de entrada nostálgica — o BBS — é um servidor SSH próprio. Quando você
conecta, ele desenha o menu, lê tecla por tecla, cuida de acentos e emojis na
largura certa do terminal, e mantém um perfil só seu: cidade padrão, cidades
salvas, unidades, idioma e tema. Esse perfil fica guardado num banco leve, para
voltar igual na próxima visita.

O serviço de clima tem uma herança que eu faço questão de creditar: ele começou
como uma releitura, em Go, do wttr.in — aquele projeto que mostra o tempo no
terminal via curl. Boa parte dos formatos de saída, do vocabulário de opções e
das dezenas de traduções descende desse trabalho, e o original segue sendo a
referência. Em cima dessa base eu fui costurando o resto: o menu, as
ferramentas, a identidade visual.

Para colocar de pé sem dor, o Hammer roda em contêiner. O serviço web de clima
fica atrás de um proxy reverso, com HTTPS resolvido na entrada; o BBS, por ser
SSH puro, atende direto na sua própria porta. Duas caras do mesmo programa, no
mesmo processo.

Entrar sem burocracia

Um detalhe que me importava: eu queria que entrar fosse fácil como era
antigamente. Nada de criar conta, inventar senha, confirmar e-mail. Então o
Hammer aceita acesso anônimo — você digita o comando com o usuário guest e já
está dentro, sem precisar de nada. Quem prefere, pode se identificar pela
própria chave; quem não quer, entra assim mesmo.

E, fiel ao espírito da coisa, as preferências continuam salvas mesmo para quem
entra anônimo: escolha uma cidade, ajuste o tema, volte depois — e ele lembra.
Para não virar bagunça, há limites gentis: um teto de conexões ao mesmo tempo e
um espaço de trabalho que se limpa sozinho de tempos em tempos. Suficiente para
brincar à vontade, sem deixar a porta aberta para abuso.

Então...

No fim, o Hammer é exatamente o que eu queria que fosse: um cantinho da internet
antiga que ainda respira. Um lugar onde você abre o terminal, ouve — na
imaginação — o modem cantar, e encontra um menu em texto esperando por você.
Feito com ferramentas de hoje, mas com o coração lá atrás.

Não é um produto. É um hobby que virou software, de código aberto, que continua
crescendo uma gaveta de cada vez. E, honestamente, essa é a melhor parte: não
ter que ser mais do que isso.


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